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NECROPOLÍTICA E CORONAVÍRUS: QUAL É O VALOR DE “ALGUMAS” VIDAS?

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É importante refletir sobre o que está acontecendo com determinados grupos de pessoas, neste nefasto momento de disseminação do COVID-19. A mídia nos massacra, cotidianamente, com a exibição de incontáveis mortes por falta de recursos médicos e vemos milhares de pessoas tendo sua dignidade violada na hora da morte.

Nesses últimos dias, a Unidade Diálogos pela Liberdade da Rede Oblata, que trabalha com aproximadamente 3.000 mulheres que exercem a prostituição no Hipercentro de Belo Horizonte, constatou a extrema necessidade que elas estão passando por não terem dinheiro para arcar com despesas, inclusive as mais elementares, como alimentação, higiene e aluguel. Diante das escassas oportunidades de trabalho, a prostituição, por pior que seja se apresenta como uma saída.

Diante deste contexto de pandemia, a equipe da unidade Diálogos foi surpreendida com a convocação que as mulheres receberam, solicitando a retomada de suas atividades. O chamado vem de forma muito direta e com claro interesse mais na preservação da economia e satisfação da necessidade dos homens do que com a vida das mulheres.

O convite para retornarem à atividade prostitucional em pleno pico de pandemia interpela-nos a questionar os efeitos da Necropolítica na vida das mulheres, prostitutas e pobres de nossa sociedade.

Necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo Achille Mbembe, em 2003 que em síntese significa uma organização estatal baseada numa política de morte, onde através de ações violentas o Estado, direta ou indiretamente, escolhe quem são as pessoas que tem direito a viver e a morrer.

Está claro que na lógica antiética do capitalismo neoliberal umas vidas valem mais que outras. A banalização da violência, a cultura da satisfação do homem, todo o comércio ao redor do sexo, uma sociedade embasada na desigualdade de gênero e o patriarcado que insiste em garantir ao homem o direito de satisfazer suas necessidades sexuais em detrimento do direito de escolha das mulheres são elementos que vão de mãos dadas e que, em plena pandemia, as empurram para retomar a prostituição.

Satisfazer os desejos do homem que busca incessantemente pelo prazer é uma prioridade em detrimento a preservação da vida. Isto é necropolítica: a crueldade do poder econômico e do Estado que podem decidir sobre o valor da vida humana. E é claro que a escolha tem destino certo: os que já estão à margem, marcados pela desigualdade e estigma social.

Incontáveis mulheres que a Unidade Diálogos acompanha, até este momento estão aguardando a aprovação do auxílio emergencial do Governo Federal. Elas têm sido pressionadas pelas dívidas do aluguel atrasado, pela compra de alimentação, itens de limpeza e higiene pessoal. Diante da urgência imposta pela falta de recursos financeiros para manter o mínimo necessário para subsistência o chamado para que retorne aos locais de prostituição se apresenta como solução.

Algumas estão decididas a retomar o ofício, mas se preocupam em trazer consigo a contaminação para seus lares. Sim! A primeira preocupação é com os filhos, uma vez que as mulheres que, estando inseridas na prostituição já estão habituadas a correr risco diariamente. Outras temem, se por ventura não forem trabalhar, podem perder o quarto que sempre batalharam para manter.

A convocação recebida pelas mulheres para retornarem as atividades, quer dizer: “preciso que vocês coloquem suas vidas em risco porque meu negócio não pode parar”. Em suma, parece que está em questão salvar os CNPJs mais que os CPFs. Por sinal, estes têm sido um entrave na vida de muitas mulheres ao solicitarem algum direito, inclusive o Benefício Emergencial. Deparamo-nos com situações na Receita Federal das mais diversas: “cancelado”, erros no cadastramento e até casos de mulheres que nem cadastradas são! O que é no momento um grande obstáculo a que acessem seus direitos.  

Esse fato e tantos outros nos sinaliza uma resposta objetiva e subjetiva de uma sociedade desigual e perversa com “algumas vidas”- que corresponde à maioria dos indivíduos dessa grande nação – menos vida, indesejáveis: Considerando que “a soberania é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é “descartável” e quem não é”, os fatos expostos e tantos outros que a mídia nos relata, confirmam que vivemos  em uma sociedade desigual e perversa  para com “algumas vidas” -que correspondem a maioria dos indivíduos dessa grande Nação- aquelas que são “menos vida” e portanto indesejáveis.

Segue um trecho de uma entrevista de Leandro Karnal:

“Sempre fomos uma sociedade desigual. A epidemia revelou de forma quase violenta a realidade. Não há como fazer isolamento social em espaços reduzidos. Não há reservas financeiras ou de comida que permite a uma família de uma comunidade ficar fechada. As classes média e alta enfrentam o tédio, tensão familiar e administração das neuroses cotidianas. Classes baixas enfrentam fome, perda de emprego e sensação de fim de vida. Se a gente conseguir transformar essa constatação em um projeto político, teremos avançado um pouco em meio à dor”.

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo – entrevista com Leandro Karnal

REFERÊNCIAS

https://portal.aprendiz.uol.com.br/2019/09/27/o-que-e-necropolitica-e-como-se-aplica-seguranca-publica-brasil/

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo – entrevista com Leandro Karnal –  https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,classes-media-e-alta-enfrentam-o-tedio-ja-as-classes-baixas-enfrentam-fome-diz-leandro-karnal,70003302191

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As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais do Diálogos pela Liberdade – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais. 

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