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Prostitutas podem ser Boas Mães?

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Este texto busca fazer reflexões sobre o documentário “Filhos da Puta”, produzido pelo Coletivo Rebu, com produção executiva de Santuzza Souza trabalhadora sexual (como ela se identifica) e representante do Coletivo Rebu, e dirigido por Kelson Frost.

No documentário três pessoas relatam suas histórias e vivências desde o que é ser filhos de mulheres que exercem a prostituição. Eles trazem relatos sensíveis que nos interpelam a dialogar com nossos pré-conceitos e abrir-nos para um amplo diálogo a respeito das diversas facetas da mulher prostituta em nossa sociedade, entre elas, o ser mãe.

A pergunta que surge, após deixar-nos sensibilizar pelas reflexões propostas pelo documentário é: ser filho da puta ou ser “filho de uma puta mãe?”

Percebeu-se que em todos os três relatos houve um esforço para tratar a atividade que a mãe exerce com naturalidade e considerá-la “um trabalho como outro qualquer”. Poderíamos fazer dissertações infinitas sobre o que é trabalho, mas não é o caso, pois não queremos tecer juízo de valor sobre a questão. Porém, considera-se que as pessoas fazem suas escolhas a partir das oportunidades, ou falta dessas. Mas não podemos desconsiderar que, apesar de todas as dificuldades e violações de direitos que a mulher prostituta enfrenta cotidianamente, de certa forma acontece uma escolha pela atividade prostitucional, seja pelo dinheiro que pode ganhar ou por outra necessidade subjetiva ou objetiva.

É fato que, historicamente, as mulheres são desvalorizadas no mundo do trabalho e mesmo que ocupe altos postos, ainda assim tem remuneração inferior aos homens. Cisne (2015) afirma que, a cultura da subordinação da mulher encontra-se relacionada à reprodução do capital. Uma mão de obra desvalorizada pode-se exigir mais trabalho prestado e remunerar menos pelo resultado do serviço. A desvalorização do trabalho da mulher serve como uma manutenção do sistema capitalista, que encontra aí uma fonte de lucro.

 A prostituição surge para algumas mulheres como alternativa para aumentar os recursos financeiros, especialmente para as mulheres que tem pouca qualificação profissional ou estudo formal.

Não há um consenso se a atividade prostitucional é ou não um trabalho. Basicamente, há três linhas de pensamento quando se discute a questão.

Os abolicionistas entendem que o exercício da prostituição não é uma escolha autônoma, pois está vulnerada em seus direitos humanos fundamentais e é uma vítima da sociedade feudo-patriarcal.

Os regulamentaristas/trabalhistas defendem a regulamentação da atividade, pois a clandestinidade favorece as violações de direitos humanos e trabalhistas. Consideram a prostituição como um trabalho; a atividade é uma prestação de serviços sexuais e consideram que no mundo capitalista toda força de trabalho é uma mercadoria. Argumentam também: “meu corpo minhas regras”, sendo a pessoa livre para decidir o que quer fazer com o próprio corpo.

Já os proibicionistas, como o próprio nome diz, defendem a proibição da prostituição. Uma das formas de proibição seria a criminalização do consumidor de serviços sexuais. Se não há demanda, não há oferta.

Independentemente da ideologia com a qual nos identificamos uma coisa é fato, as consequências da feminização da pobreza e da falência do modelo familiar patriarcal tradicional atingem profundamente às mulheres. A família continua sendo um campo de disputas ideológicas que determinam os lugares de pertencimento social legítimo para homens e mulheres. À mulher cabe o papel de cuidadora das tarefas domésticas e dos filhos e ao homem ser o provedor e autoridade moral.

A desigualdade de gênero é o ponto crucial por detrás dos mistérios que envolvem o preconceito e o estigma vivenciado pelas mulheres que exercem a prostituição. A partir desta moral conservadora o abandono maternal não é tolerado, pois há a ideia de que a maternidade é um dom natural. Não há regra equivalente para os homens. Não existem “filhos do puto”.

Estamos em uma sociedade pensada e estruturada a partir da lógica masculina, então se não apurarmos o nosso senso crítico, nos deixamos levar pelas consequências do machismo estrutural que perpassa nossa vida desde a concepção. Há implícito e latente, na maternidade, a questão de como a mulher vive a sua sexualidade, sendo legítima e tolerada somente aquela que é exercida dentro do matrimônio. Portanto, os filhos das mães “solteiras” ou “sem cônjuge” são bastardos, “filhos da puta”. Claramente uma referência à vida sexual “inadequada” da mulher. Por incrível que pareça, na perspectiva moralista, vida sexual e maternidade são excludentes.

Embora os dados sejam alarmantes há um enorme silêncio sobre os motivos pelos quais os pais que abandonam material e afetivamente o filho.  Uma pesquisa realizada em 2013, pelo Conselho Nacional de Justiça, com base no Censo Escolar 2011, atestou que 5,5 milhões de brasileiros não têm no registro o nome do pai. Pesquisa feita pelo IBGE em 2011, mostra que 17,4% das famílias se enquadram na categoria “mães sem cônjuge com filhos”.  Os dados demonstram que as mulheres assumem sozinhas a responsabilidade sobre seus filhos independentemente de quais meios de sobrevivência exerça para manter seus filhos.   ´

 Se a mulher opta pela atividade sexual como forma de obter renda para prover sua família ao estigma de mãe solteira sobrepõe-se o de prostituta.  O estigma não se refere somente à atividade, mas pretende desqualificar à própria pessoa como aquela que “não presta”. Inclusive, lhe negando a possibilidade de ser boa mãe, que ela não pode “gerar bons frutos”.

 Os olhos preconceituosos se estendem aos filhos, que são marcados profundamente pelo sentimento de injustiça que os acompanha desde a infância. No documentário fica claro que, as atitudes preconceituosas que mais marcam e machucam são as que vêm da própria família, que devido a falta de compreensão torna-se o pior algoz da mulher e de seus filhos. Ressaltamos aqui a profunda gratidão e respeito que os filhos têm por suas mães, independentemente da sua atividade.

Conclui-se que o termo “Puta” traz uma série de complexidades e poderia ser analisado de vários ângulos. A desigualdade de gênero, a divisão sexual do trabalho e o controle do corpo e da sexualidade da mulher são elementos essenciais para a compreensão e análise mais aprofundada, uma vez que o preconceito e o estigma que o homem sofre por utilizar a prostituição como fonte de renda, não são os mesmos que as mulheres estarem na mesma condição.

Por: Isabel Brandão – Psicóloga e Ir. Luiza Pralon

Referências:

Acompanhe outras reflexões da Rede Oblata sobre o tema:

https://ffeminina.oblatassr.org/

https://pastoraldamulher.oblatassr.org/

https://projetoantonia.oblatassr.org/

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Conteúdos do blog

As publicações deste blog trazem conteúdos institucionais do Diálogos pela Liberdade – Unidade da Rede Oblata Brasil, bem como reflexões autorais e também compartilhadas de terceiros sobre o tema prostituição, vulnerabilidade social, direitos humanos, saúde da mulher, gênero e raça, dentre outros assuntos relacionados. E, ainda que o Instituto das Irmãs Oblatas no Brasil não se identifique necessariamente com as opiniões e posicionamentos dos conteúdos de terceiros, valorizamos uma reflexão abrangente a partir de diferentes pontos de vista. A Instituição busca compreender a prostituição a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazendo à tona temas como o estigma e a violência contra as mulheres no âmbito prostitucional. Inspiradas pela Espiritualidade Cristã Libertadora, nos sentimos chamadas a habitar lugares e realidades emergentes de prostituição e tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, onde se faz necessária a presença Oblata; e isso nos desafia a deslocar-nos em direção às fronteiras geográficas, existenciais e virtuais. 

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